
Me faço em mil pedaços. Mas na verdade, bem no fundo, já estou quebrada. E sei quando e quem me quebrou. Meus muitos pedaços são diferentes. Não encaixam como um quebra cabeça. É difícil me remendar.
Mesmo minha habilidade com as mãos, conquistada pela prática corriqueira de me resconstruir, não está dando conta do trabalho ultimamente.
Não sei se sei mais me reconstruir. Estou com os meus cacos nas mãos e eles não me inspiram mais a juntá-los. Hoje eles me cortam. Eu sangro mas não sinto dor.
Queria eu, a inocência de outrora. Os inocentes são muitas vezes tomados por tolos. Mas são eles quem vivem na serenidade. Perder a inocência é cair no mar revolto da consciência. E quanto mais sei, mais não sei se fiz boa escolha. Saber dói. Saber afugenta as esperanças. O saber é um lugar ao qual nunca chegamos. Porém quanto mais nos aproximamos desse lugar mais solitários sentimos que estamos.
Saber é pesado. Quer conforto? Saiba o mínimo. Mas se querem saber e também sofrem dessa sede desenfreada pelo conhecer, te digo que, se perceber solitário não é tão problemático. Porque não é, afinal, uma condição. Mas sim, uma circunstância; o problema da solidão é se apaixonar por ela.
Eu não fumo mais. Mas hoje seria bem vindo um cigarro, dois talvez. No entanto vou fazer uma farta xícara de chá e aquarelar um papel em branco. Depositar nele toda minha contradição, inadequação, frustração sem a menor compaixão.
Na arte é possível viver e morrer. Matar até. É permitido transgredir. Agredir o confortável modo de existir sem questionamentos. Meu chá será minha testemunha. Testemunha do meu morrer artístico. Eu morro toda vez. Sigo morrendo um pouco e vivendo de novo. Para morrer um pouco mais enquanto viver.
