Há muito, do outro, em nós

Somos um pouco do outro que nos ilumina. Como assim?

Em nossa trajetória de vida há pessoas que conhecemos, direta ou indiretamente, que nos tocam. Seja com sua arte, com sua personalidade, seu modo viver. Às vezes, sem perceber, outras vezes perceptível, somos inspirados por essas pessoas.

Percebi que no decorrer desses trinta e quatro anos “encontrei” muita gente pelo caminho, gente que foi minha inspiração. Inspiração para tudo. Para ser alguém melhor. Levar uma vida mais saudável. Para viver uma vida com mais significado. Mais poesia.

Essas pessoas são como lugares bonitos pelos quais passamos e que nos marcam profundamente, mudando, de alguma forma ainda que mínima, o nosso modo de olhar. Todos nós somos possíveis lugares de inspiração para alguém, portanto, que nunca nos falte luz. Que sejamos lugares iluminados e bonitos e que cuidemos sempre do lugar que somos; para nós mesmos e para quem nos visitar. Que possamos encontrar inspiração e ser fonte de alguma inspiração para alguém.

Cuide do lugar que você é.

Wabi Sabi e Eu

Conheci Wabi Sabi a mais ou menos cinco anos atrás.
Um dia meu amigo enviou-me a foto de uma janela. Mas não era uma janela qualquer, era uma janela com um vaso de flores naturais ressecadas e a parede estava com a tinta bem desgastada, manchas do desbotamento causado pelo sol, vestígios do lodo oriundo sabe lá de quantos longos invernos.
Meu amigo disse ter pensado em mim ao ver a foto, e por isso me enviou. Segundo ele, aquele era o tipo de cenário que eu valorizava porque reconhecia alguma beleza naquele desgaste. Ele me conhecia bem. Meu amigo, de longa data, me disse que a origem da imagem era uma postagem sobre Wabi Sabi.

Wabi Sabi?

Era a primeira vez que eu ouvia aquele termo. Depois da conversa com meu amigo corri para pesquisar sobre o assunto.
Naquela dia descobri que eu já exercia Wabi Sabi e não sabia.
Digo, exercia porque Wabi Sabi é, para mim, um jeito olhar para mundo.

Para quem, como eu a cinco anos atrás, nunca ouviu falar em Wabi Sabi: trata-se de uma filosofia que surgiu dentro do Zen Budismo Japonês, que valoriza a simplicidade, a impermanência, as imperfeições. Grosso modo.

Wabi Sabi é a beleza das coisas imperfeitas, impermanentes e incompletas. É a beleza das coisas modestas. É a beleza das coisas não convencionais.

Naquele dia nasceu o interesse para conhecer mais sobre Wabi Sabi. E quanto mais eu aprendia, mais percebia o quanto já vivenciava essa filosofia.

Minha vó me ensinou esse olhar para a vida. Talvez por ela ser uma grande artesã tenha desenvolvido tamanha sensibilidade.

Quanto a mim, sou grata por ser sua neta e ter podido observar, desde muito pequena, a sutileza, destreza, sensibilidade com que minha vó fazia e refazia suas manulidades.

O jeito como ela restaurava peças que, por outras pessoas seriam descartadas, a beleza que ela percebia no minimalismo, a poesia que criava ao contar sobre o passado e como as marcas do tempo são presentes de quem teve o privilégio de viver. Porque estar vivo, para minha vó Dulce, era uma dádiva.

Certamente a vivência com ela me tocou profundamente. Lapidou em mim um pouco da sensibilidade que ela possuía. Olhar para os desgastes, as imperfeições, as marcas que o tempo deixa nas coisas, nas pessoas e perceber a beleza, que para muitos está oculta, é sem dúvida libertador.

Me faz sentir, como minha vó, que a vida é uma dádiva e me estimula a sentir gratidão por vivê-la. Porque esse novo olhar me desobriga da busca pela perfeição. Me torna livre das amarras que a perfeição nos impõe. A vida é movimento e as marcas são inevitáveis, encontrar nelas, como um tesouro preservado, seu real significado é fazer desse movimento da vida uma dança. Porque nada é imutável! Nada é permanente! Nada é perfeito!

Escriba

As palavras são como borboletas carnívoras. Nos devoram. Mas ao mesmo tempo nos permitem ver e reviver além da fração te tempo. Além do instante. Gravadas, cravadas na memória, no papel, na existência, para uns um adorno. Por outros carregada, exibida feito troféu. Mas para mim, digo somente que a carrego como quem carrega uma carta manuscrita. No peito e no pensamento. Dolorosamente dolorida.

QUARENTENA E TERAPIA

O distanciamento social mexeu com a rotina de muita gente. Com a rotina e com as emoções, naturalmente.
Quem nunca tinha tempo, agora tem tempo de sobra pra pensar e repensar.
Mais que isso, tempo para conviver com a família e consigo mesmo. Que barra, einh!
O modelo de vida comum em nossa sociedade pós moderna é NÃO TER TEMPO para observar a origem de comportamentos dos filhos. É não ter tempo para abrir um pouco da vida pessoal para os pais. É não ter tempo para rever um casamento que se arrasta por conveniência. É não ter tempo para admitir que as redes sociais sabem bem mais dos detalhes da vida de cada um, do que as pessoas que os cercam. Decerto esses tempos de quarentena farão com que muitas relações que vegetam cheguem finalmente ao seu cansado final, enquanto fará com que outras relações se aprofundem, se reinventem, sobrevivam a tudo isso mais fortes que antes.
Algo é inegável, felizmente ou infelizmente, só por meio da quarentena foi possível, nas nossas vivências superficiais, ter tempo pra pensar a vida, a vivência e a convivência, para muitos.
Tem sido no distanciamento social de ficar em casa, que muitos tem saído de seu mundo particular (quase sempre virtual) para se aproximar das pessoas da vida real.
Bauman que o diga.

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