
Conheci Wabi Sabi a mais ou menos cinco anos atrás.
Um dia meu amigo enviou-me a foto de uma janela. Mas não era uma janela qualquer, era uma janela com um vaso de flores naturais ressecadas e a parede estava com a tinta bem desgastada, manchas do desbotamento causado pelo sol, vestígios do lodo oriundo sabe lá de quantos longos invernos.
Meu amigo disse ter pensado em mim ao ver a foto, e por isso me enviou. Segundo ele, aquele era o tipo de cenário que eu valorizava porque reconhecia alguma beleza naquele desgaste. Ele me conhecia bem. Meu amigo, de longa data, me disse que a origem da imagem era uma postagem sobre Wabi Sabi.
Wabi Sabi?

Era a primeira vez que eu ouvia aquele termo. Depois da conversa com meu amigo corri para pesquisar sobre o assunto.
Naquela dia descobri que eu já exercia Wabi Sabi e não sabia.
Digo, exercia porque Wabi Sabi é, para mim, um jeito olhar para mundo.
Para quem, como eu a cinco anos atrás, nunca ouviu falar em Wabi Sabi: trata-se de uma filosofia que surgiu dentro do Zen Budismo Japonês, que valoriza a simplicidade, a impermanência, as imperfeições. Grosso modo.

Wabi Sabi é a beleza das coisas imperfeitas, impermanentes e incompletas. É a beleza das coisas modestas. É a beleza das coisas não convencionais.
Naquele dia nasceu o interesse para conhecer mais sobre Wabi Sabi. E quanto mais eu aprendia, mais percebia o quanto já vivenciava essa filosofia.
Minha vó me ensinou esse olhar para a vida. Talvez por ela ser uma grande artesã tenha desenvolvido tamanha sensibilidade.

Quanto a mim, sou grata por ser sua neta e ter podido observar, desde muito pequena, a sutileza, destreza, sensibilidade com que minha vó fazia e refazia suas manulidades.
O jeito como ela restaurava peças que, por outras pessoas seriam descartadas, a beleza que ela percebia no minimalismo, a poesia que criava ao contar sobre o passado e como as marcas do tempo são presentes de quem teve o privilégio de viver. Porque estar vivo, para minha vó Dulce, era uma dádiva.

Certamente a vivência com ela me tocou profundamente. Lapidou em mim um pouco da sensibilidade que ela possuía. Olhar para os desgastes, as imperfeições, as marcas que o tempo deixa nas coisas, nas pessoas e perceber a beleza, que para muitos está oculta, é sem dúvida libertador.
Me faz sentir, como minha vó, que a vida é uma dádiva e me estimula a sentir gratidão por vivê-la. Porque esse novo olhar me desobriga da busca pela perfeição. Me torna livre das amarras que a perfeição nos impõe. A vida é movimento e as marcas são inevitáveis, encontrar nelas, como um tesouro preservado, seu real significado é fazer desse movimento da vida uma dança. Porque nada é imutável! Nada é permanente! Nada é perfeito!



