Sempre me resguardo quando me percebo agitada. E agitação é rotina de quem vive nas cidades. Sons, vozes, luzes, visões, múltiplas cores, texturas e formas que, sem licença, nos invadem. Quando nossas cercas estão vulneráveis, todos os estímulos indesejáveis adentram profundamente. E o estardalhaço está consumado.
As notícias não são as melhores. As informações de necessárias passaram a nocivas. Disso também tento, na medida do possível, me afastar. Pode parecer alienação e eu não digo que não seja. Mas se afeta, em demasia, é preciso saber a hora de afastar.
Nessas horas, por me conhecer bem e por obséquio, me acalento nas coisas que me são possíveis acalentar. A ART sempre funciona. Porém, se não sei a medida, de tão bela e profunda, me aprisiona.
Mergulhar no oceano das minhas pulsões artisticas me ajuda a lembrar quem eu sou. Me faz pensar nos meus objetivos. Lembrar dos propósitos que me movem. Mas também refletem como espelho. E a visão que tenho é de coragem e de medo. De luz e de escuridão. De raciocínio e, por consequência e necessidade, paixão.
Depois de três décadas, tantos anos, ainda me permito não saber ao certo o meu caminho. Mesmo assim não paro de andar. Tiro da cartola momentos para o descanso porque faz parte, essas pausas, sempre oportunas, nunca por acaso, revelam a urgência por leveza, como boca seca em lábios rachados de um rosto etéreo, sede angustiante de profundidade.
Bebo dessa fonte e constato, não somos poços rasos, e volto para o caminho com alguma beleza singela e ânimo suficiente para mais algum tempo de produção, de ideias, de construções e entendimentos.
Até chegar o momento de espera e pausa, novamente. Nesses momentos nunca teimo, nem me faço rebelião, já sei, é hora de pausar. Tempo ao tempo. Pausa para um café ou chá. Tempo para uma música ou poema. Ou tempo de aprender sobre a descrença. Um tempo que passa, apressado ou devagar, depende muito da mente que processa.
Mas é sempre necessário lembrar que tempo que é tempo passa. E saber disso assola e consola. Apascenta e arrasa com essas terras desconhecidas e visitadas, dentro de nós.

