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Um Continho Inusitado

Em 1986 haviam estrelas cadentes o suficiente para realizar todos os desejos dos desejosos de alguma coisa. As praias estavam cheias de pessoas entusiasmadas mesmo sendo um janeiro em demasia chuvoso.

O esgoto da cidade estava limpo, a água era cristalina. Me pergunto até hoje para onde haveria ido tanta sujeira. As flores, dizia minha vó, eram esbranquiçadas por essas épocas. As moças com lábios carnudos não usavam batom porque era pecado. Aliás, um tanto de coisas era pecado, quando feitas às claras, nesse tempo. E hoje também.

Tinham um fecho de lenha guardado para ocasiões oportunas, eram precavidos. Disso não se pode reclamar, ou se pode? Aquelas tranças curtas e apertadas, depois longas e pesadas, tinha orgulho de carregar. Ela era dalgada, dizia a tia. Ela fala demais, dizia a prima. Ela é um encanto de menina, dizia a vó.

As mãos daquela que fazia as tranças tinham um brilho incomum. E eram macias feito seda. Rosadas feito pêssego. A voz era mansa e ela nunca fazia questão. Era seu único defeito. Não sei porque. Naquele dia chuvoso, disseram ser quatro da tarde, depois disseram ser sete da noite, houve até quem disse ser no dia seguinte, depois da meia noite…

Vingou a estória de quem disse ser às quatro da tarde de uma quarta feira, ou segunda, não se sabe ao certo.

O que se sabe é que era pouquinha e temperada com gênio indomável. Parecia um passarinho de tão magra. Todos tinham cuidado nos olhos, era real o medo de que ela pudesse anoitecer e não amanhecer. Porém ninguém dizia nada a ninguém.

Naquele dia ela disse sim e foi horrível. Uma horrividão atrás da outra. E de horror em horror ela ficou mais corada e a história que contam é que não empalideceu mais. Se é verdade não se sabe ao certo.

Tem um caminho cheio de penas de passarinhos. Ninhos e tudo mais… Dizem que hoje em dia ela se esconde por lá. Mas ninguém passa pela ponte pra saber se isso também é verdade. Por isso, toda vez que conto essa história faço questão de dizer que talvez, mas só talvez, seja tudo lenda. História contada, aumentada, inventada, não há de se saber, afinal, quem haverá de investigar?

Nem se de ao trabalho de pensar para responder, eu respondo. Aliás, lhe dou, de graça, por graça, uma ideia que não há de recusar. Caso queira um dia contar tudo isso para alguém conte como lenda, se vão acreditar ou não não importa. Pra um contador de contas, de contos, o que importa mesmo é envolver, quem ouve, quem lê, com a história.

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